[ANIMES] SHIROBAKO (ou doces sonhos são feitos disso)

| domingo, 5 de maio de 2019
 
Existe gente que cujo trabalho é gerenciar prazos humanamente impossiveis, fazendo malabarismo com diversos projetos simultaneos em planilhas que sequer os computadores da NASA conseguiriam compreender, e ainda sim de alguma forma tenta passar uma mensagem, tenta fazer arte com essas condições de trabalho tão esgoeladas.

Mas, mais importante que isso, gente que não escolheria qualquer outra profissão no mundo porque é gente que genuinamente ama o que faz. Apesar dos prazos, apesar do salário baixo, apesar da pressão insana. Gente que ama desenhar, ou escrever roteiros, ou colorir, ou produzir efeitos sonoros, ou dublar, ou apenas fazer com que todas as coisas funcionem sem não receber nenhum crédito do grande publico por isso.

Essas são as pessoas que trabalham na indústria de animes.


Tabela anual de ganhos na indústria de anime. Da esquerda para direita: desenhista, consultora freelancer, dubladora desconhecida, assistente de produção, animadora de CG, diretor de episódio, diretor da série, animadora chefe do estúdio, produtor executivo, dubladora TOP popular.


Os inbetweeners, os assistentes de produção, os artista de CG, os revisores de episódio (ou mesmo de bloco quando o episódio é particularmente importante), os produtores executivos, os diretores de som, os coloristas.

Enfim, gente que ama contar histórias, que ama robos gigantes ou meninas mágicas que se transformam, que ama animes. Mais importante que tudo, gente que tem um trabalho muito dificil onde muita coisa pode dar errado - e dá - e que dificilmente é agradecida por isso.

Todo mundo celebra Hirohiko Araki por ser uma das maiores mentes criativas do nosso tempo pelo seu Jojo Bizarre Adventure, mas ninguém canta em verso e prosa o nome do colorista que torna essa experiencia tão memoravel (o nome dela é Eriko Murata, aproposito)


Shirobako é um anime sobre fazer animes, e um que usa algumas ideias muito interessantes para mostrar o trabalho não reconhecido destes homens, mulheres e colchões molhados que compõe a industria do anime.

Na primeira temporada do anime, o estúdio ficcional Musashino está produzindo um anime original (ou seja, não é adaptação de manga, jogo ou light novel) e o anime já começa no meio do caminho. Ou seja, o primeiro episódio se passa quando o anime já esta relativamente avançado e o primeiro episódio está sendo exibido. É bastante sincero como toda equipe de produção se reune para assistir o resultado final de algo que eles ralaram tanto para fazer, tanto quanto todos os problemas que acontecem a partir daí.

No primeiro episódio, por exemplo, o problema do dia é que um assistente de produção bastante incompetente, com medo de tomar um esporro, não revelou que os quadros de animação chave que ele deveria conseguir com os desenhistas estavam puta atrasados e não seriam entregues a tempo.
Como não há outros animadores chave disponíveis para finalizar os quadros, a equipe tem que recorrer a uma animadora já super atarefada, que relutantemente decide aceitar o trabalho extra a pedido do supervisor de animação do terceiro episódio que é seu rival. Uma vez terminados os frames, a assistente de produção e protagonista do anine Aoi Miyamori vai buscar os quadros de animação na casa da desenhista dando mais pau no FIAT da firma que o marco véio descendo o morro da Vó Salvelina para entrega-los a tempo de serem revisados e então dubplados. Na volta, ela então pára na casa da desenhista para agradecer pelo trabalho e a encontra desmaiada no chão inconsciente devido ao excesso de trabalho. Existe uma palavra em japones para morrer de tanto trabalhar, karoshii, e francamente é assustador que eles tenham uma palavra especificamente para isso.

Todos os episódios da primeira temporada seguem esse caminho, mostrando problemas que potencialmente acontecem na produção de um anime - com o diferencial que essas histórias não são tiradas da bunda e sim uma coleção de relatos pessoais de situações reais vividas pelos membros da produção do anime.

O fluxo normal da produção de um epsisódio de anime... supondo que nada saia errado e precise ser refeito


Por exemplo, o diretor do anime dentro do anime é um talentoso porém não tão pé-no-chão diretor, tendo tido uma ascenção meteorica com enorme sucesso no inicio da sua carreira... até esta ser praticamente destruida pela infeliz execução de um anime ecchi que foi um pesadelo de produção e resultados, Jigly Jigly Heaven, razão pela qual ele ainda é motivo de piada dentro da industria.

Essa história não é tão longe assim da realidade, sendo baseada na história de vida pessoal de Hiroyuki Hata que começou na industria como uma grande promessa ao dirigir ainda bastante jovem o sucesso Girls und Panzer. Esse sucesso, no entanto, foi completamente por agua abaixo com a desgraça na vida que foi "Recently, My Sister is Unusual" ... que é um anime sobre uma menina que ganha um cinto de castidade mágico e para se livrar dele precisa ter orgamos com o irmão. É, e a produção desse anime foi tão desastrosa quanto a sinopse dele, dizendo as lendas que tiveram episódios entregues ao estúdio de televisão cinco minutos antes do prazo para entregar a fita master. O anime de 12 episódios teve DOIS episódios de recapitulação, sendo o final só lançado em DVD na temporada seguinte. Ainda hoje Hata é motivo de piadinha nos bastidores da industria, e "Recently, My Sister is Unusual" é ensinado aos novatos como um paragon de tudo que NÃO deve ser feito na produção de animes

Hiroyuki Hata foi supervisor de episódio e fez storyboards para Shirobako, com o qual compartilhou sua história. O próprio estudio ficticio onde o anime se passa é vagamente baseado na Kyoto Animation, onde vários membros da produção já trabalharam. A Kyoto Animation foi um estúdio altamente popular no começo dos anos 2000 com seus animes moe (Lucky Star, A Melancolia de Haruhu Suzumiya, K-On) porém que caiu no ostracismo sem nenhum titulo particularmente bem sucedido nesta decada.

"Shirobako" significa "Caixa branca", que era onde as versões master dos VHS dos animes prontos eram guardados para serem enviados as emissoras. Hoje não se usa mais caixas de VHS, obviamente, mas a expressão ainda é usada na industria para se referir a animes prontos.

Porém é reconhecido dentro da industria que a Kyoto Animation tem as melhores condições de trabalho, paga os melhores salários e ambiente menos tóxico que você pode conseguir em um estúdio de animação, tal qual o esúdio Musashino do anime. Curiosamente, a vida imita a arte e em 2018 a Kyoto Animation conseguiu emplacar um grande sucesso novamente com Violet Evergarden. Embora eu não seja o maior fã desse anime, sempre sou a favor de ver boas práticas sendo recompensadas então yay para eles!

Então a galerinha muito louca do estúdio Musashino tem que viver altas confusões enquanto mil e uma coisas acontecem, como o diretor divando totalmente e decidindo mudar o rumo do anime no meio da produção, pessoas desistindo, animadores se sentindo ameaçados com o uso de 3D nos animes e várias outras histórias ou sentimentos reais por parte das pessoas por trás dos animes.

Não obstante isso, Shirobako também não é economico também nas referencias por a pessoas reais na produção. Eis aqui algumas delas:


O diretor do anime dentro do anime é inspirado em Seiji Mizushima, veterano da industria desde os anos 80 e mais conhecido por ser um diretor com mais coração do que pé no chão. Ele foi diretor da primeira adaptação de Full Metal Alchemist e muitos dos problemas que a equipe do anime enfrenta na segunda temporada ao tentar adaptar um manga de ultra sucesso para anime são condizentes com histórias reais que Mizushima enfrentou ao adaptar Full Metal Alchemist para a televisão enquanto o manga ainda estava sendo produzido.
O incompetente assistente de produção Tarou, o cara que todo mundo odeia, na verdade é baseado no próprio diretor de Shirobako, Tsutomu Mizishima. Em entrevistas, Mizishima disse que em sua juventude ele era como Tarou, não tinha nenhuma compreensão do processo, era incompetente e superestimava demais suas próprias habilidades.
O tiozinho super gente boa que é dono do estúdio Musashino é inspirado em Masao Muraiyama, fundador da MADHOUSE. Assim como sua contraparte no anime, Masao é conhecido por ser ultra simpático e apaixonado por animação que nunca perde uma Otakon, apesar da sua idade.
Masahiko Inami, com quem a protagonista teve uma infeliz tentativa de ingressar no mundo dos animes é inspirado em Masahiko Minami, presidente do estúdio Bones. Como no anime, Minami é conhecido por andar por aí com uniforme de baseball tanto quanto por não ter muita noção do quanto ele está sendo grosso com as pessoas
Em uma participação muito especial, em determinado momento nossa protagonista vai pedir ajuda a lenda da animação Mitsuaki Kanno, responsavel pelo mega sucesso Neon Generation Avangaldon. Caso não tenha ficado claro o suficiente, essa é a uma referencia ao excentrico Hideaki Anno, responsavel pelo anime mais relevante dos anos 90, Neon Genesis Evangelion... e que é uma figura bastante... única.

O tiozinho que fica vagando pelo estúdio Musashino e que não desenha garotinhas moe mas entende PRA CARALHO de animação é inspirado em Yasuji Mori. Mori foi um dos pioneiros da industria de animação, tendo sido o primeiro "diretor de animação" creditado em um longa metragem. Ao longo de seus mais de sessenta anos de carreira, Mori ensinou muitos grandes animadores de hoje a trabalhar nessa industria, incluindo até mesmo Hayao Miyazaki (sim, AQUELE Miyazaki). Mesmo tendo falecido em 1992, ainda é tido com muito respeito no meio


Ichiro Itano é famoso pelo que é chamado na industria de “Itano Circus”, o nome dado informalmente às barragens de mísseis dançantes e estilizadas da série Macross original (em Shirobako é chamada de "Kitano Circus").

No anime, Kitano aparece em um episódio em que os animadores de 3D e 2D estão brigando, e como o homem que esteve em ambos os lados ele encerra a briga com sua experiência superior. Na vida real, Itano não tem medo de experimentar extensivamente com o 3D: veja Blassreiter. Seu ultimo trabalho foi em 2015 com Gundam: The Origin, como diretor de unidade.

Existem muitas outras referencias, mas já deu para pegar uma ideia de como a coisa funciona.

A segunda  temporada de Shirobako tenta algo diferente, no entanto. Agora o estúdio Musashino tem o desafio de adaptar para anime um manga de ultra sucesso de vendas - e todos os desafios que vem com isso como não ter total liberdade criativa para fazer o que quiser, ter que lidar com o capricho do autor, lidar com executivos muito interessados em números porém que não poderiam estar cagando mais para a qualidade da animação ou os problemas de ter terceirizar a produção e contar com o trabalho dos outros.

Essa é uma planilha EXTREMAMENTE simplificada do cronograma de produção de um anime exibido semanalmente


Existe uma cena muito iconica nesse sentido, que é a escolha do elenco de dubladoras para o anime. Após realizarem todas as audições (mais de 100! para CADA personagem), então a equipe de produção do anime se reune para deliberar... junto com quem está bancando essa empreitada.

Assim, o representante da empresa que vai vender as trilhas sonoras do anime quer que seja uma dubladora que saiba cantar, mesmo que ela não combine com o personagem. O responsavel pela distribuição de DVDs/BD quer apenas que seja alguém popular para os otakus comprarem - por ele, escolher quem tem mais resultados na busca do Google é um metodo totalmente eficiente. O responsavel por eventos da marca quer apenas que a dubladora seja gostosa pra caralho, para atrair publico nos eventos ao vivo com o time de dublagem - se ela mal souber falar direito, isso não é relevante. E o diretor do anime quer... bem, uma voz que seja adequada a personagem, claro. Isso para não falar das indicações políticas, quando um dos envolvidos prefere determinada dubladora porque ela (e uma parte da comissão dela) já estão "apadrinhados" pela empresa dele.

E assim vai essa discussão para cada uma das cinco personagens principais... POR MAIS DE VINTE HORAS DE REUNIÃO! Ufa, não é fácil...

A esquerda, a cena original do anime que eles estavam fazendo. A direita, a mesma cena refeia depois que o diretor achou que ela estava uma merda DEPOIS DE PRONTA e decidiu refazer tudo... o que levou mais de um mês da produção


Então a segunda temporada de Shirobako também continua focando nos problemas de produção (ainda diferentes da primeira temporada), mas também abre mais para mostrar os estágios iniciais da produção de um anime e todas as dezenas de reuniões, decisões e malabarismos que você tem que fazer quando trabalha com uma propriedade intelectual que não é sua bancado com um dinheiro que não é seu. Definitivamente não é nada fácil. Mesmo.

 O episódio sobre os animes de antigamente é realmente tocante, eles se deram ao trabalho de criar um encerramento para o anime que a protagonista assistia quando criança, Andes Chucky (inspirado no anime real chamado "Rocky Chucky") tem todo o feel daquela época.

Porém, Shirobako não se contenta em ser apenas um making of dos bastidores da industria dos animes. Ele também é um narrativa com evolução e arcos de personagens, e a segunda temporada dedica um tanto de tempo para mostrar quem são aquelas pessoas, o que elas querem e porque elas fazem o que elas fazem. Será que elas ao menos sabem porque fazem o que estão fazendo?

Como dito anteriormente, a industria dos animes não é exatamente o melhor lugar do Japão para trabalhar. Os salários são baixos, a carga de trabalho é enlouquecedora e a complexidade do produto infinita. Então porque eles continuam fazendo isso? Porque eles viram noites em claro, ou dormem no chão do escritório, ou em cima da bancada de trabalho? 


 
 
 
 
 


Shirobako é mais do que um anime ou um proto documentário, é um carta de amor e agradecimento a estes profissionais que fazem robôs gigantes e waifus se tornarem realidade. Aos que faziam isso pintando com acetato em celulas transparentes (e tinham que esperar a tinta secar!) trinta anos atrás aos que fazem isso hoje tendo que lidar com servidores FTP que não funcionam e coordenando um lançamento simultaneo em escala global. Muito obrigado por tudo (exceto por Mirai Nikki, porque né...), de verdade.



Muito obrigado a todos, e nunca desistam dos seus sonhos! Os nossos sonhos agradecem!



Next Prev
▲Top▲